THE MUBARACK WAY – 10 DE JULHO DE 2017
CALÇADOS

Sinopse

Por que a vigorosa indústria calçadista do Vale do Rio dos Sinos no RS decaiu de forma tão contundente nos últimos 25 anos, após seu apogeu nas décadas de 70 e 80? O que outros segmentos devem aprender com as causas da decadência? Taxas de câmbio desfavoráveis, políticas nefastas do governo e a dita concorrência desleal de chineses e vietnamitas explicam a derrocada ou apenas encobrem as verdadeiras razões, enraizadas na gestão da indústria calçadista?

ENTENDA AS RAZÕES DA DECADÊNCIA DA INDÚSTRIA DO CALÇADO E O QUE OUTROS SEGMENTOS PODEM APRENDER COM ISTO

Pesquisei vários artigos e reportagens sobre a situação da indústria do calçado no RS e no Brasil e alguns dados muito interessantes estão descritos a seguir:

I – A posição da indústria calçadista brasileira em 2016:
O Brasil está entre as 6 primeiras posições no mercado mundial como produtor, consumidor e exportador.
Os polos no RS, SP e CE são os mais fortes.

II – Características da indústria calçadista sem clara correlação de causas com a decadência dos últimos 25 anos:
1. Valorização da moeda brasileira em relação ao dólar facilitou a importação.
2. Abertura de mercado nos anos 90.
3. O estudo da cadeia produtiva e o mapa do negócio no mundo foram insuficientes.
4. Aconteceu o movimento das fábricas atrás de mão de obra mais barata e incentivos fiscais no Brasil e no mundo. Países como China e Vietnã tornaram-se concorrentes muito fortes.
5. Perdemos espaço para os asiáticos em relação aos principais fatores: custo da mão de obra, incentivos fiscais, disponibilidade de energia, água e outros insumos, disponibilidade de transportes, suprimento de matéria-prima, custo da terra, possibilidade de formação de clusters e serviços públicos.
6. A indústria brasileira é formada por quase 100% de capital nacional.
7. Grande parte das indústrias é de pequeno porte e familiar.
8. Fazem geralmente poucos investimentos em tecnologia e em canais de comercialização.
9. Trabalhadores com baixo nível de qualificação e salários abaixo da média da indústria.
10. Alta rotatividade.
11. Estados Unidos representam 26 % das importações mundiais.
12. Intensificou-se na última década a concorrência de países asiáticos, como China e Vietnã.
13. Exportações para os USA caíram para 1/3 na primeira década do século XXI. 14. Aumento de produtividade deveria compensar o aumento do custo da mão de obra,fato ainda pouco relevante para várias empresas e especialmente para os sindicatos.
15. Vantagem competitiva dos asiáticos: grandes fábricas com ganhos de escala, moeda desvalorizada em relação ao dólar e produção direcionada para o mercado externo.
16. Nos últimos 10 anos, especialmente no período de 2009 a 2011, houve o direcionamento da produção brasileira para o mercado interno (86%) devido às melhorias de renda da população.
17. Para muitos, a perda de mercado externo pelas empresas brasileiras deveu-se à valorização da moeda, concorrência asiática e aumento dos custos de produção (materiais, mão de obra, encargos sociais, taxas e impostos).

III - Observe-se em itálico relatos oriundos de jornais e artigos coletados nos últimos 25 anos e como pensamentos ruins geram conclusões erradas:

Pensamento ruim #1:
“Um mar de guarda-pós de orgulhosos sapateiros invadia as ruas das cidades da região a cada final de expediente nos anos 80. Era o apogeu do setor calçadista nos Vales do Sinos, Paranhana e Caí. Uma indústria pulsante, composta por potências como Irmãos Mu?ller e Centenário, em Novo Hamburgo, Strassburger, em Campo Bom, e pela Starsax, Rio de Luz e a Azaleia dos seus gloriosos tempos em Parobé. Hoje, parte dessa sólida indústria já não existe mais. O que sobrou do Vale Sapateiro são muitos prédios vazios e empresários obstinados que lutam para driblar os crescentes custos de produção e a concorrência desleal de países asiáticos”.
Não existe concorrência desleal. Concorrência é concorrência e ponto final. Nunca se deve apontar causas externas para os fracassos de uma empresa por um motivo muito simples: não há controle sobre elas. É preciso apontar para as razões que fragilizam as empresas quando são atacadas pelos concorrentes ou por qualquer outra causa externa, não importa de que forma.

Pensamento ruim #2:
“Mas é bom lembrar que não apenas o segmento calçadista está em crise, e sim a economia brasileira como um todo”.
Pensamento horroroso, procura justificar as falhas de uma empresa ou segmento demonstrando que muitos outros também falharam, fato que não altera em nada a situação ruim e a incompetência das companhias.

Pensamento ruim #3:
‘‘O que nós fizemos com os italianos nos anos 70, a China vem fazendo com o Brasil desde a década de 1990, que é nos tirar o mercado de calçados de baixo valor agregado. A solução é justamente investir em sapatos de maior valor agregado para vender aos novos ricos chineses do futuro’’, observou um antigo diretor-presidente da Fenac.
Será mesmo? Clayton Christensen, professor muito conhecido da HBS explica como as grandes indústrias do aço e automobilística nos USA foram vencidas por concorrentes muito menores pelo mesmo pensamento: “Vamos produzir algo com maior qualidade”. Onde está o contrato que obriga chineses e vietnamitas a não produzir produtos de alta qualidade? Como é possível que um homem de negócios acolha ideia tão rasteira? Somente o pensamento mágico justificaria este raciocínio completamente equivocado e repetidamente contrariado pelos fatos.

Pensamento ruim #4:
Outro empecilho é a alta carga tributária, que onera demasiadamente as empresas.
Pensamento verdadeiro, mas quem disse que a indústria brasileira precisa permanecer no Brasil? Um grande erro do empresário brasileiro é o seu baixo grau de internacionalização e o desejo de permanecer com sua fabriqueta na cidade onde nasceu. Uma empresa precisa pensar globalmente desde o primeiro dia da sua fundação.

Pensamento ruim #5:
Empresários como Claudio Strassburger foram participar da política. Mas a sua ausência acabou coincidindo com a decadência das suas empresas...
Erro grosseiro, ocasionando perda de foco e mistura com gente ruim abundantemente presente na política.

Pensamento ruim #6:
Quando o governo lançou o lema '‘Exportar é a solução'’, me agarrei com unhas e dentes, afirmou um empresário do ramo calçadista.
Confiar em algo prometido ou iniciado pelo governo é fazer um pacto com o demônio. Deve-se evitar qualquer projeto sustentado apenas por lemas criados por demagogos.

Pensamento ruim #7:
Se nos anos 70 e 80 o Vale do Sinos era um oásis de crescimento e prosperidade diante do cenário de hiperinflação enfrentado pelo Brasil, faltou um plano estratégico – por parte do governo e do setor – de longo prazo para ingressar em mercados internacionais, o que, no entanto, foi feito pela China. '‘Quando diversificamos, temos mais possibilidades e, na hora da crise, há mais movimentos que podem ser feitos'’, sublinha um ex-executivo da indústria calçadista.
Sempre esperando o planejamento do governo, muitos empresários sucumbiram diante da leniência da área pública. O governo nunca planejou e nem vai planejar. Esperar algo do governo é uma atitude tão confortável quanto atrasada.

Pensamento ruim #8:
‘‘Por isso, temos que estar atentos e preparados para quando as chinesas e as indianas tiverem dinheiro para comprar marcas e produtos melhores’’, antecipa outro executivo do calçado.
Repetindo, desconheço qual é a garantia assinada por chineses, vietnamitas e os outros asiáticos proibindo-os de produzir sapatos de qualidade.

Pensamento ruim #9:
“Precisamos da proteção do governo para evitar as importações”.
Enquanto as empresas brasileiras esperarem pela proteção do governo, não haverá exposição suficiente ao mercado internacional e evolução tecnológica de alto padrão.

Pensamento ruim #10:
"Pois o patrão só pensa em lucrar e, quanto mais a empresa ganhar em cima do trabalhador, para ela, é lucro", afirmou um sindicalista.
O pensamento do sindicato é sempre ignorante na sua essência. A frase tosca do sindicalista expressa conceitos com duzentos anos de atraso. Sem mais comentários!

Conclusão:
Uma empresa, por menor que seja, deve pensar globalmente desde o primeiro dia da sua fundação. Uma parcela expressiva dos homens de negócios no Brasil estuda o mercado internacional e regras básicas do management insuficientemente. A única solução é reunir capital, pessoas brilhantes e tecnologia, definir metas, elaborar um plano de ação e executá-lo disciplinadamente.

Paulo Ricardo Mubarack
CEO da Mubarack Consulting e da PSV Real Estate, é engenheiro eletrônico graduado pela UFRGS e MBA em management pelo Boston College/Laureate - USA. Já prestou consultoria e ministrou treinamento em desenvolvimento gerencial para mais de 160 empresas no Brasil e no exterior. É Angel Investor, membro de Conselhos de Administração e autor do Livro Empresas Nuas.

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